domingo, 1 de setembro de 2013

Raul (10)

anterior: Raul (9)
Deu um passo em direção ao interior:
-Boa tarde! – Disse Maria ao entrar, sem que obtivesse qualquer resposta. – Está alguém em casa? – Mais uma vez sem resposta.
            A casa encontrava-se, como de costume, bem arrumada. As almofadas cuidadosamente colocadas sobre o sofá, o taco limpo e encerado, e a mobília limpa sem ponta de pó.  A janela estava entreaberta e a cortina movia-se graciosamente em função da brisa.
Se súbito o ranger da porta de entrada e o consequente estrondo do seu embate quebraram todo aquele pacífico silêncio e Maria deu um salto voltando-se para a porta. O seu coração tinha disparado como um alarme automóvel. Segundos depois de algumas respirações profundas como tentativas de se acalmar, Maria colocou a mão na maçaneta e tentou abrir a porta. Apesar dos seus esforços, desistiu assim que concluiu que a porta se encontrava trancada. “Boa… agora só quando a D. Leonor chegar é que saio daqui… Perfeito!” resmungou, aborrecida com a situação. O que pensariam os pais do Raul ao encontrar a amiga do filho, por sinal falecido, fechada em casa deles?
Espreitou na cozinha: ninguém. Dirigiu-se para o escritório: ninguém. Desistindo do andar inferior, subiu as escadas em direcção aos quartos e chamou mais uma vez, à espera de resposta: nada. A porta do quarto do Raul estava fechada e sem pensar duas vezes, mas ainda a medo, Maria abriu-a muito lentamente como se apreciasse o vagaroso ranger da porta. À medida que o espaço entre a parede e a porta aumentava, Maria esboçava um sorriso pelas quantas memórias aquele espaço lhe trazia. Respirou fundo e entrou no quarto.
A pouca luz que atravessava as cortinas, dava ao quarto um ar adormecido e perfume do Raul, praticamente um mês depois da sua morte, permanecia como sempre intenso no ar. Pousou o saco e avançou até ao piano vertical dele e, deixando a mão deslizar sobre as teclas, deu a volta ao banco que se encontrava à frente do piano e sentou-se. Tantas tardes passara ali a ouvi-lo tocar... Ela nunca soubera tocar mais do que as simples músicas que ele lhe ensinava e sorria já com os olhos molhados enquanto os seus dedos brincavam com as teclas do jeito que ele lhe ensinara.
Um barulho repentino atrás e si fê-la parar de tocar. Voltou-se para poder identificar de onde provinha o ruído. Algo se mexia dentro do armário do Raul e, levantando-se, ela avançou para o abrir – fez-se silêncio dentro do armário. Pousou devagar a mão sobre o puxador e ao mesmo tempo que o pressionou para abrir a porta, esta abriu-se e o gato do Raul saiu disparado e de cauda tufada pelo quarto fora. Ela fechou a porta e, ao mesmo tempo que se sentou na cama, respirou fundo. “Fechada na casa do Raul com o gato enfurecido dele… Fantástico…”. Outro barulho surgiu de dentro do armário – como alguma coisa a cair. Abriu a porta e uma caixa preta de cartão grosso caiu para o chão. Pegou nela e sem hesitar duas vezes abriu-a.
Uns conjuntos de envelopes encontravam-se por cima de um bloco de desenho. Maria ainda hesitou em abri-los e ao abrir o primeiro percebeu que não o devia ter feito – o envelope continha uma carta dirigida a ela, escrita pelo Raul. Fechou-a sem a ler, voltou a pô-la dentro da caixa e colocou a caixa dentro do armário. Fechou a porta e ficou parada, ainda sentada na cama, a olhar para porta. Não queria invadir assim a privacidade do Raul mas seriam aquelas cartas para quem? Aquela era para ela mas e as outras? Não dava, se não visse naquele momento poderia não voltar a ter a mesma oportunidade. Voltou a ir buscar a caixa e abriu-a. “Desculpa…”sussurrou como se o Raul a ouvisse. A carta que abrira em seu nome foi posta de parte. Abriu a seguinte: “Doce Maria, …” – mais uma. Outra: igual. E assim todas elas se somaram de parte sem restar uma única que não fosse dirigida a ela. Ela não sabia o que pensar. Abriu o bloco de desenho: entre paisagens, animais, apenas alguns desenhos eram dela, por sinal, muito bons. Ela nunca soubera que ele gostava de desenhar e pelo que via, tinha mesmo jeito.


Tornou a pôr o bloco dentro da caixa e fixou-se nas cartas a ponderar o que faria. Não demoraria muito até pais dele chegarem e vir-se-ia embora sem as ler se as deixasse ali – juntou-as e levantou-se para as guardar no saco dela, junto ao piano. Voltou para junto da cama, fechou a caixa e guardou-a de novo dentro do armário. Ao fechar a porta foi capaz de ouvir o barulho da porta de entrada abrir no andar de baixo – a mãe ou o pai do Raul já deviam ter chegado a casa. Ela dirigiu-se para a porta mas descoordenou-se, tropeçou no tapete e nos próprios pés e caiu, batendo com a cabeça na esquina do banco em frente ao piano, desmaiando de imediato no chão do quarto do Raul.
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(disponível a 08-09-2013)

11 comentários:

  1. muito obrigada! eu também te sigo :)

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  2. tenho a dizer-te que és um amor, que devo-te a ti muitos dos meus retornos, muitos dos meus textos! obrigada por isso e por te manteres aqui, sempre à espera de um regresso que parece nunca chegar, mas chega. um beijinho princesa

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  3. r: mas tens de tentar! só assim é que sabes se consegues ou não! :)
    owww, tão fofinha! :) também foi mais fácil conversar contigo e "criar laços" porque temos o mesmo sonho e apoiamo-nos e damos conselhos uma à outra. :)

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  4. r: depois te tanto tempo a batalhar para isto, finalmente consegui! yeeeah! :D obrigada <3 também quero um dia ouvir-te. e um dia cantar contigo! :D

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  5. r: para os outros acreditarem plenamente em ti, tens tu de acreditar! não há nada melhor para aprender do que a experiência. e não te esqueças "só reconheces a vitória se souberes o que é a derrota". nem sempre tudo vai correr bem mas podemos fazer para que isso aconteça! força, força, força, força! :)

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  6. r: eles pensam nisso porque já têm essa ideia entranhada, já pensam que és o coro. o que tens de fazer é mostrar-lhes que estão errados! tu consegues, tens tudo para o conseguir! e não querem conhecer? não te interesses! o resto do mundo está sempre disposto a conhecer novos cantores, atores, pintores, enfim, artistas. o que são 10 ou 20 pessoas ao lado do resto do mundo? esforça-te e mesmo que eles não acreditem em ti agora, quando te virem em cima de um grande palco no mundo, eles vão acreditar ;)

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  7. Gostei, está cada vez melhor.
    Ps. Devias ajustar as margens e limites do blog, o texto está muito encolhido, e ficaria melhor apresentado se tivesse mais espaço

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  8. r: não, totó! tu disseste que eras feia :( eu acho que os teus olhos um dia vão é chorar (de horror ) ao ver-me x)

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